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A evolução das transações econômicas globais a partir dos anos 1990 se acelerou de tal maneira que, passados mais de 30 anos, se tem a sensação de que o planeta diminuiu de tamanho. Com as mudanças tecnológicas e institucionais, recentes e aceleradas, então, as conexões fazem com que a informação aconteça em tempo real, derrubando barreiras físicas, geográficas e distantes. As imagens em holograma, por exemplo, já permitem entrevistas e shows num formato impensável até pouco tempo, trazendo celebridades, artistas, ídolos, entre outros, para uma realidade virtual, que coloca a transmissão de imagem e som num contexto de aproximação fantástico e atrativo, cuja exibição incorpora novos hábitos determinando novos processos de realização.

No mundo interligado por incalculável quantidade de conexões, as economias sofrem com as vicissitudes dos mercados, como se experimentassem viver e conviver numa casca de ovo.

Sem exagero, pode-se afirmar, hoje, que, por causa do contingente populacional, a Terra se assemelha a um gigante formigueiro. Não existe território que escape ao conhecimento humano que não tenha tido a sua presença e, parecendo formigueiro, a sociedade mundial tende a lotar todos os espaços na medida em que cresce, ainda que num ritmo decrescente. Com quase 8 bilhões de habitantes, com estimativa de alcançar 11,2 bilhões em 2100, o planeta emite sinais de que não comporta tanta gente sobre a sua superfície de 510 milhões de quilômetros quadrados. Só os oceanos correspondem a 362 milhões de quilômetros quadrados, enquanto o seu volume de águas atinge 1,3 bilhão de quilômetros cúbicos. Terras devastadas e poluição do mar são os destaques da ocupação desorganizada e predatória feita pelo homem sobre a natureza, tornando o movimento preocupante e exigindo medidas severas para mitigar seus efeitos nocivos presentes e futuros.

Existem estudos informando que a Terra, hoje, demanda 1,6 vezes mais o que ela possui de capacidade com seus recursos para atender as necessidades do homem. Isso significa que a demanda sobre o planeta é 60% acima da sua capacidade de resposta às exigências humanas. Isso também representa o estabelecimento de perspectivas de escassez de curto, médio e longo prazos, além de outras consequências que irão impactar as economias, tais como inflação, mercados em desequilíbrio e exclusão social do consumo – movimentos que reproduzem a pobreza, assim como as diferenças abissais entre países ricos e pobres.

Portanto, o contexto é o de que o mundo ficou pequeno, as fronteiras mais próximas, as nações mais dependentes umas das outras e os fluxos de turismo, de migrações, de investimentos, de mercadorias e de serviços se tornaram mais necessários para a manutenção de condições relativas ao progresso e ao crescimento econômico.

Nesse aspecto, como dentro de um ovo, a superfície terrestre se torna a casca e o seu núcleo, com clara e gema, corresponde a todos os acontecimentos. Assim, se a casca trincar, toda a massa interna do ovo sentirá. Se o ovo se mexer, toda a clara e gema mudarão de lugar. Além de mais sensível às mudanças, o ovo parece que ficou mais vulnerável às modificações. Sob esse viés, a forma e a dispersão da ocupação populacional se tornou sério problema para os habitantes do planeta, assim como os recursos naturais finitos têm ficado insuficientes para suprir tantas exigências das sociedades.

O corolário disso é que, além de passar a conviver, cada vez mais rotineiramente, com os fenômenos da natureza decorrentes das alterações climáticas, a humanidade, como um todo, vem sofrendo direta e indiretamente os efeitos da globalização.

Não bastassem esses transtornos, soma-se a característica expansionista da ação humana sobre outros povos. Recentemente, os problemas causados pela invasão russa na Ucrânia acentuaram os desequilíbrios entre os mercados, os quais estavam em processo de ajustes com a recuperação, mas que ficaram mais expostos e frágeis aos movimentos de preços em escala global.

A guerra na Eurásia se constituiu num baque para a recuperação econômica global, sendo rapidamente percebida na transmissão sobre as relações de dependência entre os países. Os preços passaram a subir aceleradamente e isso se deveu ao comportamento dos preços do petróleo, do gás e do trigo. O mundo todo vem sofrendo com a inflação. Essas altas de preços influenciaram pressões para a formação de preços mais elevados ao longo dos continentes. Enquanto as incertezas também puxaram o dólar, depreciando algumas moedas de economias menos importantes, as autoridades vêm buscando, no crescimento da taxa de juros, uma forma para diminuir o processo de alta de preços e equilibrar os mercados.

A reverberação de implicações e consequências tem tudo a ver com a globalização e com a imagem do mundo do tamanho de um ovo. Um leve choque ou uma fratura na casca mexe com toda a sua superfície e é sentida por dentro, em diferentes aspectos, em todos os lugares.

Até o momento, são mais de 225 dias de invasão da Rússia na Ucrânia, episódio pontual que assombra o planeta gerando incertezas e imprevisibilidade quanto ao término do conflito e suas extensões. Somente com a Ucrânia, em ativo físico e fixo, as perdas ultrapassaram a casa dos US$ 100 bilhões. E as medidas retaliativas, tomadas pelos países mais ricos contra a Rússia, deverão produzir recessão na ordem de dois dígitos, acima de 10%, significando que a economia russa ficará bastante deteriorada com a incursão bélica. 

O mundo de fato não deu sorte. No momento em que as economias começavam a se recuperar do fenômeno da pandemia, os dramas causados por essa guerra vêm se estendendo com a inflação generalizada, seguida das medidas que os países vêm tomando para sanear suas economias, por meio do aumento da taxa de juros e maior protecionismo com o comércio internacional, buscando restringir o poder de influência de outras políticas públicas sobre a política econômica do país.

No cenário de diminuição do ritmo da atividade econômica global, contribui para a queda de seu ritmo a China, país que realizou alguns lockdowns por causa da retomada da covid-19 em algumas áreas, cujos efeitos maiores parecem desembocar na redução do volume das encomendas internacionais, afetando a cadeia das exportações e o crescimento das economias, o que, por outro lado, restringe mais ainda o volume de mercadorias, de serviços e de capitais transacionados entre os países.

No momento em que as expectativas quanto ao crescimento global vão se tornando menores, os empresários das micro e pequenas empresas (MPEs) devem ter em mente que seus negócios serão atingidos direta e/ou indiretamente. Afinal, participam da vida dentro do ovo. 

Sobe o petróleo lá fora, a Petrobrás necessita repassar o incremento para seus produtos visando a reduzir defasagens de preços. Por extensão, sobem os preços de muitas mercadorias, porque o insumo principal do transporte fica mais caro e o custo do frete segue no mesmo sentido. Tem-se inflação de maneira generalizada e o governo toma medidas restritivas, sinaliza isso ao mercado, propõe diminuir crédito, consumo e investimentos, elevando a taxa básica de juros – a qual é seguida pelos demais agentes financeiros, encarecendo compras financiadas e inibindo o endividamento, hoje, com volume já bastante acentuado. A inflação alta reduz o poder aquisitivo da moeda e deprecia a qualidade de vida. Consumidores ficam insatisfeitos e, por conta disso, se tornam mais cautelosos, adiando gastos e compras no crediário. Assim, espera-se que os preços percam fôlego para continuar subindo.

O resultado dessa teia de relações que se interligam chega nas MPEs e nos agentes franqueados através do consumo arrefecido e das dificuldades de vendas, emoldurando o quadro da necessidade de se fazer melhor gestão da empresa e tendo que se adaptar ao convívio com a escalada de preços e suas implicações sobre os negócios e o lucro.

Além de enfrentar um leão diariamente, o empresário do setor de franquias necessita compreender algumas coisas, como o fato de que o seu negócio será atingido por conflitos que escapam a sua ingerência; que esses episódios podem estar a milhares de quilômetros de distância; e que a sua empresa vai precisar se adequar, cada vez mais rápido, às mudanças da conjuntura, nivelando-se com o mercado consumidor de forma ágil e de maneira a se tornar solução permanente. Se estiver num shopping e conseguir, ainda, fazer mais ajustes sobre a estrutura de custos, pode ser um caminho, principalmente sobre a gestão dos estoques.

Antonio Everton Chaves Júnior

Economista, especialista em Ambientes e Negócios, em Micro e Pequenas Empresas (MPE) e Empresas de Pequeno Porte (EPP)

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