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Iniciei minha vida profissional na mesma época em que o sistema de franquia no Brasil estava dando os primeiros passos, durante 36 anos vivenciei todos os momentos da sua evolução até os dias de hoje. Eu, junto com minha família atuei como franqueado passando por várias etapas do desenvolvimento do franchising e é com esse olhar que vou me atrever a escrever sobre este fantástico sistema, segmentando em ondas temporais ao longo de sua história, ou seja, o entendimento desde o surgimento do franchising até os dias atuais, porém, do ponto de vista, na visão como franqueado.

1.a ONDA: APRENDIZADO (1960 à 1975, 15 anos)
O surgimento do sistema de franchising teve suas primeiras iniciativas no final da década de 10 nos Estados Unidos da América, mercearias e mercados adotaram o formato de negócio das vizinhanças, mais especificamente as que se chamavam grocery stores,
que depois evoluíram para supermercados como os conhecemos hoje, já em 1921 surgiu a locadora Hertz primeira franquia de serviços puros, os que não envolvem a posse física de um produto e só podem ser experimentados. No Brasil os passos iniciais do sistema se deram na década de 60 através da transferência de know how pelas escolas de idiomas CCAA e Yázigi, baseados no conteúdo do seu material didático. Na década de 70 marcas como Ellus, Água de Cheiro, Mr. Pizza, entre outras utilizaram o sistema como estratégia de expansão, a rede de fast food americana McDonald’s embarcou no nosso país, em função de seu projeto de internacionalização. E assim no Brasil se passaram 15 anos, a 1.a ONDA, de um período que chamaria de APRENDIZADO, em que foi construída a base sólida para dar sequência aos próximos anos que viriam. Nasci em 1964, então posso afirmar que estive ao lado deste processo inicial do surgimento do sistema no Brasil. Cresci num ambiente, numa família, que respirava negócios, os assuntos se voltavam sempre para as empresas, meu avô, Jeová Nunes de Matos, foi presidente de uma indústria de máquinas e implementos agrícola fundada em 1965 e meu pai, Mauro Nunes Pereira, junto com outros, se engajou no projeto RITA (Rural Industrial Thechnical Assistence), através de convênio entre universidades brasileiras e americanas, posteriormente criaram o CEDI (Centro de Desenvolvimento Industrial), na sequência o NAI (Núcleo de Assistência Indústrial), todos inspiradores e embriões da instituição que hoje se chama SEBRAE. De forma que com o passar do tempo fui absorvendo e me estimulando com o mundo empresarial e no início da década de 80 minha mãe montou sua primeira loja no sistema de franquia, no qual participei ativamente de todos
os preparativos.

2.a ONDA: CONSOLIDAÇÃO (1976 a 1993, 17 anos)
No final da década de 70 e início dos anos 80 o sistema de franquia foi adotado por diversas marcas no Brasil para expandir seus negócios, víamos surgir em várias cidades do país marcas antes apenas acessíveis aos clientes de um determinado local. Com a edição do plano cruzado no ano de 1986 em que o foco deixou de ser os investimentos no mercado financeiro e passou a ser no sistema produtivo, era mais viável abrir um negócio do que deixar o dinheiro “parado” no banco, época em que ocorre então o boom com a criação de unidades de negócio em ritmo acelerado. Ao chegar o ano de 1987 surge uma entidade sem fins lucrativos para divulgar, defender e promover o desenvolvimento técnico e institucional deste sistema de negócio, trata-se da ABF (Associação Brasileira de Franchising), que teve papel fundamental no desenvolvimento do sistema neste período. Unidades franqueadas estavam instaladas em várias partes do país e em pleno crescimento, era premente e fundamental a profissionalização do sistema, momento em que houve algumas iniciativas neste sentido. Nesta 2.a ONDA que vai de 1976 a 1993, que durou 17 anos, chamaria de CONSOLIDAÇÃO.

Nesta época, década de 80, já ajudava minha mãe em sua primeira loja que se tornaria franqueada em 1985, em paralelo montei outro negócio junto com um sócio no segmento de alimentação natural, para mim uma escola, um grande aprendizado. Porém, estava sempre acompanhando a nossa loja franqueada, nos anos que se seguiram, entendendo e vivenciando todas as etapas deste período, como a assinatura do contrato com o franqueador, a reforma do layout para atender aos padrões exigidos, entre outras, até que a loja de alimentos naturais teve que ser encerrada e passei a me dedicar totalmente à franquia, implantei um projeto de expansão para abertura de novas lojas em nossa área de atuação e em poucos anos já tínhamos 5 lojas bem localizadas pela cidade.

3.a ONDA: EXPANSÃO (1994 à 2016, 22 anos)
Pouco se tem de publicações a respeito dos bastidores da criação da Lei 8955/94 que trata do contrato de franquia no Brasil. De iniciativa do Deputado Federal José Roberto Magalhães Teixeira, que faleceu em 1996, foi um marco na profissionalização do sistema de franquia brasileiro. Porém, iniciativas como esta tem sua origem em necessidades, gaps, encontrados nas práticas do mercado, geralmente vindos da iniciativa privada. No início da década de 90 já haviam diversas marcas espalhadas pelo nosso país e cada franqueador conduzindo à sua maneira, sem uma norma maior para regulamentar as práticas, que muitas vezes não eram baseadas no princípio da boa-fé. Como consequência ao fim da década de 80 já havia vários franqueados de diversos segmentos que fecharam suas portas. Então eis que surgem entidades, como o Instituto Brasileiro de Franchising – IBF presidido por Marcelo Cherto considerado um dos maiores especialistas de franchising do país na época e atualmente, assim como a Associação Brasileira de Franqueados – ASBRAF (Fundada em 1991, teve baixa em 2008 e ressurge em 2017 com nova configuração), cujo fundador e presidente foi José Antònio Ramalho, hoje atual Diretor Gestor na nova configuração da associação, também master franqueado entre os anos de 1980 a 1988, que incentivaram e levaram sugestões relevantes como a criação da Circular de Oferta de Franquias – COF, para compor o projeto de lei 318-A/91, sancionado em 15 de dezembro de 1994, como Lei 8955/94. Por este entendimento percebe-se que a Lei do franchising no Brasil surgiu da iniciativa de entidades que visavam o fortalecimento do sistema através da regulamentação do setor, bem como a instituição da ética na relação entre franqueadores e franqueados. Coube a ABF construir a história após esta etapa promovendo a expansão de marcas franqueadas em todos os cantos do país, retroalimentando o setor e criando diversas oportunidades para investidores, fornecedores, num papel fundamental no crescimento do franchising brasileiro. A esta fase da história, a 3.a ONDA, chamaria de EXPANSÃO, período de 22 anos de muitas inovações, com o surgimento de novos canais de vendas, novos formatos e novas marcas de franquia dos mais diversos segmentos do mercado. Durante este período tive várias iniciativas como o ingresso em 1998 no mercado da internet, em parceria com dois jovens estruturamos e profissionalizamos uma das primeiras empresas do segmento web na paraíba. Instalamos nosso escritório central para dar suporte ao crescimento das unidades franqueadas e que abrigava também uma agência de publicidade. Em paralelo fui convidado e aceitei conduzir como primeiro Presidente da Junior Achievement, seccional Paraíba, uma instituição fundada nos Estados Unidos que promove programas de empreendedorismo nas escolas de ensino fundamental e médio em vários países no mundo, no Brasil tem sede em Porto Alegre – RS e seccionais em todos os estados da federação. Simultaneamente assumi uma das diretorias da associação de lojistas de um Shopping, o Shopping Sul, onde realizamos um trabalho de reestruturação, novo posicionamento, nova comunicação com o público-alvo e nas relações internas.

Tempos de reconhecimentos, a partir do ano 2000 com premiações como melhor franqueado do nordeste por dois anos consecutivos, prêmio MPE Brasil – PB e finalista nacional pela empresa de tecnologia web, bem como prêmio do Programa Paraibano da Qualidade – PPQ. Momentos de pleno auge e também de dificuldades, pois, ao final de 2016 uma crise instalada provocou o rompimento com a franqueadora.

4.a ONDA: EQUILÍBRIO DE FORÇAS (A partir de 2017)
Desde o princípio do uso no Brasil pelas mais variadas marcas do modelo de sistema de franquias, muito se evoluiu e houve uma consolidação que fez e faz o franchising ter crescimento exponencial, é um processo sem volta, muito mais será realizado nos próximos anos. Porém, mesmo com a criação da Lei do Franchising, o desequilíbrio de forças permaneceu, franqueadores continuam conduzindo ao seu modo e por suas conveniências, visto que a Lei 8955/94 rege regras exclusivamente sobre o contrato e não especificamente da relação entre as partes no que diz respeito aos mecanismos de proteção em caso de rupturas. Então foi inevitável que tenham ocorridos outros casos de desconforto entre investidores franqueados e franqueadores. O fato marcante neste novo período foi o agrupamento de franqueados com a criação de uma associação genuinamente representativa, a Associação Brasileira de Franqueados – ABRASF, que adota o nome original da que foi fundada em 1991, mas esta fundada em 29/06/2017 tem uma nova configuração, sob o comando de seu presidente, o experiente advogado Dr. Raul Canal, especialista em cooperativismo, associativismo e em modelos de negócios de franquia empresarial, surge num momento do país que vive uma democracia plena e assiste às suas principais instituições firmes realizando uma verdadeira “limpeza”, na representação política e governamental. A ASBRAF já nasceu com articulações extremamente importantes com o congresso nacional, a exemplo da Frente Parlamentar de Apoio às Empresas Franqueadas, presidida pelo Deputado Federal Gonzaga Patriota, que entre outras bandeiras defendem a PLC 219/2015 que revoga a Lei 8955/94 e institui novas regras que favorecem, fortalecem o sistema e também traz mecanismos que protegem o franqueado, atualmente a parte mais fragilizada. A história comprova que o sistema de franchising brasileiro sempre foi conduzido por franqueadores, naturalmente representando seus interesses, fortalecendo o sistema, mas também os propósitos dos detentores das marcas. Praticamente neste tempo as iniciativas para dar representatividade aos franqueados não se firmaram. No entanto, desde o surgimento do franchising no Brasil, todo aprendizado, consolidação e expansão, não vejo outro momento que não o atual para subirmos mais um nível evolutivo, com a participação efetiva e institucional da outra parte da balança, os franqueados. Será selando esta parceria entre os dois condutores que daremos um grande salto para melhoria do sistema de franquia. A este novo período, a 4.a ONDA, chamaria de EQUILÍBRIO DE FORÇAS, a próxima onda que escreverá uma nova história do franchising no Brasil. Exatamente em 2017 enfrentei a pior crise ocasionada por uma posição impositiva da franqueadora, apesar de todos os esforços o negócio da marca se apresentou inviável, tendo em vista a nova política adotada, o que motivou a decisão pelo repasse do negócio, em seguida vários fatos ocorreram que agravaram a situação. Após entendimentos é assinado o documento para o repasse que claramente descreve nas suas cláusulas ser irretratável e irrevogável, mas para minha surpresa ao fim do prazo final a franqueadora desiste de maneira unilateral.

Encerramos as atividades como franqueado com 20 lojas, 1 central de venda direta, 1 escritório central e mais de 250 funcionários. Em função da crise instalada comecei uma articulação com outros franqueados no país e identifiquei que não era um caso isolado, estava acontecendo em cidades de quase todos os estados no Brasil. A iniciativa então foi agrupar estes franqueados e ex-franqueados em torno de uma associação, conforme os contatos aconteciam descobri uma mesma vontade a partir de Brasília, o resultado foi a união destas iniciativas que culminou na criação em junho de 2017 da Associação Brasileira de Franqueados – ASBRAF, no qual tomei posse como Diretor de Relações Institucionais. Temos muito a contribuir com o sistema de franchising brasileiro e desta vez também com a vez e voz dos franqueados. Grandes fatos marcaram o sistema de franchising brasileiro durante estes períodos que dividi em ondas temporais, em minha humilde visão de quem atuou como franqueado durante 36 anos. Não há dúvidas que o franchising é um sistema excepcional com características que impulsionam a economia, geram emprego e renda, mas que também pode ser constantemente melhorado. Podemos dar um novo salto a partir deste momento e estabelecer a verdadeira união entre franqueadores e franqueados em prol de fomentar e otimizar ainda mais os resultados e impactos positivos das franquias no Brasil. Já vivemos uma quarta revolução industrial com a grande velocidade que a tecnologia tem nos colocados nas transformações de negócios, comportamentos do consumidor, novas maneiras de aferir, inclusive até o sistema econômico, a exemplo da moeda bitcoin. Não é hora de permanecer distante um dos outros e sim estar lado a lado para construir um novo olhar, mas que franqueados tenham sua verdadeira importância reconhecida e valorizada
daqui por diante e para sempre.

Referências
https://franquia.com.br/noticias/comosurgiu/
https://centraldofranqueado.com.br/blog/2016/11/24/historia-do-franchising-no-brasil/
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/17701/17701_3.PDF
https://www.empresascnpj.com/s/empresa/associacao-brasileira-de-franqueados-asbraf-nome-fantasia-asbraf/28363243000103
http://www.cnpjbrasil.com/e/empresa/asbraf/63376057000100
http://www.livroabf.com.br/
http://lefisc.com.br/news/inscricaocnpjsrfb.htm

Sobre o autor: Empreendedor, Consultor e Palestrante, atual Diretor de Relações Institucionais – ASBRAF (https://asbraf.com/), formado em Administração, foi franqueado durante 36 anos, 1o. Presidente da Junior Achievement – Paraíba de 2004 a 2006.2, Diretor da Associação dos Lojistas do Shopping Sul de 2005 a 2007, premiado diversas vezes entre eles como melhor franqueado do Nordeste, MPE Brasil e melhor gestão pelo PPQ – Programa Paraibano da Qualidade.

Site: https://douglasnunnes.wixsite.com/consultorpalestrante

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